segunda-feira, 1 de agosto de 2011


 Ha tempos

Legião Urbana

Parece cocaína
Mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos…
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro…
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso…
Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito…
Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira…
E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção…
Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa…

ANÁLISE:

Esta é, sem dúvidas uma das músicas mais simples de se interpretar do legião. É bem clara a intenção de mostrar os sentimentos presentes e ausentes em um jovem em “crise existencial”. Logo no primeiro parágrafo temos um vocábulo de lugar, “cidade”, já passando a idéia de insatisfação com o lugar em que habita o eu-lírico, ou o lugar que habita nele mesmo, há possibilidade para mais de uma interpretações… Veja bem: como herdar o que perdemos? Oras, as consequências da ausência são heranças perceptíveis. Essa herança seria justamente o TEMOR causado pelo cansaço e pela solidão.O uso da primeira pessoa do plural leva à generalização, e pode ser vista com a finalidade de falar por uma grande massa que se vê calada e que, se falassse a dor que sente “acordaria (…) a vizinhança inteira”. A solução para este “caos” seria o sonho que um dia teve mas que já não se lembra, ou seja, um sonho que jamais se realizaria, não havendo porque lutar com ele. Outra possibilidade seriam os santos, a religiosidade, e até eles estão incertos sobre o que é maldade num tempo como àquele.
E eis a melhor parte da música… Os jovens estão sentindo na sua essência este mundo doentio, este mundo cheio de valores contraditórios, chegando a adoecerem, mas não fisicamente, pelas palavras subsequentes, parece faltar (veja mais uma vez a AUSÊNCIA estando presente significativamente) o ENCANTO de viver. Já não há mais porque sorrir, parece o fim de tudo. Até que os sorrizos envelhecem, enferrujam… No trecho :”Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção…” parece justificar que alguns jovens adoecidos pelo “mundo” buscam ajuda, “abrigo” ao que estiver mais próximo, neste caso é o ACASO, o que é uma indireta às drogas, à tentativa de suicídio etc.
Então aparece uma solução, um guia: “Disciplina é liberdade; Compaixão é fortaleza; Ter bondade é ter coragem.” Ainda há esperança!
Os últimos dois versos são implicantes… Como a própria batida da música entrega, esta não seria uma fala da “massa” já citada, ou do eu-lírico, na primeira pessoa que também aparece durante a música. Este novo personagem é o egoísta que pode salvar o mundo, salvar a “cidade”, tirar os jovens do “acaso”, fazer os sonhos se transformarem em realidade e acabar com o “imperfeito”. Ele tem um POÇO, ele tem como promover essa mudança. Ele não quer compartilhar o “bem” que tem. Não tem “coragem”.

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