terça-feira, 2 de agosto de 2011

LEGIÃO URBANA

“Olha, o disco estava sendo planejado para ser um álbum duplo. Iam ser 25 músicas. Grande parte desse material teria base acústica. A gente estava pegando muita coisa feita entre Aborto Elétrico e a Legião, música que eu tocava no violão. Íamos fazer arranjos para o conjunto tocar. Não deu certo por causa de uma série de problemas. Então tivemos que fazer uma redefinição do trabalho. Agora será um disco com 12 músicas, que tem um fio condutor, uma idéia central.(...) Tem muita música de amor, mas tem, também, música que fala do social, do político, mas num contexto emocional, num contexto individual, algo mais ou menos como ‘Baader-Meinhof Blues’, só que sem aquela parte negativa. Eu acho que as idéias da gente estão bem gerais e não muito específicas. É um lance assim, ao invés de falar das pessoas que poluem os mares, ou das guerras, a gente prefere falar do universal, da experiência individual(...). Todo mundo respira, todo mundo sonha, todo mundo é confuso sexualmente(...), todo mundo tem medo da morte. Então a gente quer falar sobre isso: do ponto em comum que une todas as pessoas.”
Renato Russo, sobre o Dois

Legião Urbana me marcou muito na adolescência. Na juventude, eu descobri a música brasileira, além do rock, e passei a admirar Cazuzamuito mais que Renato Russo. Cazuza tem achados verbais que eu considero até hoje e poderia ter transposto o rock, como transpôs em “Faz parte do meu show” (uma letra genial que a novela, claro, estragou). Renato Russo, pouco antes de morrer, se aventurava em outros gêneros, como o sempre revisitado american songbook (The Stonewall Celebration Concert, 1994), e como o pop italiano contemporâneo (Equilíbrio Distante, 1995) – fora que planejava gravar os “mineiros” (doClube da Esquina em diante). Não houve tempo. Ou houve, e ele não conseguiu se livrar da pecha de “roqueiro”.

Embora minha admiração estética por Cazuza seja muito maior, e eu o entenda melhor como artista, porque ele era um todo – cênico, lírico, etc. –, o Renato Russo permanece um enigma. Analisando friamente agora, não acho tanta graça nas letras da Legião Urbana, mas, quando escuto as canções, sinto que algumas delas ainda podem me levar às lágrimas... Por quê? É o que tento responder neste texto.

O Renato Russo permanece enigmático porque, ao contrário do Cazuza (com toda a sua loucura), ele não tinha um projeto estético. O Cazuza escreveu sobre a sua geração, coisas que podem ser lidas até hoje (como um manifesto), sobre seu envolvimento com o rock etc. – e soa bastante coerente. Tanto é que puderam fazer um filme inteiro sobre ele.

Para escrever aqui, fui atrás de um livro de entrevistas que tenho sobre o Renato Russo – meio oportunista, é verdade, editado logo depois que ele morreu –, mas, em vez de esclarecer, me confundiu mais. Ao contrário do Cazuza que lidava muito bem com a mídia (até naquela capa polêmica da Veja), Renato Russo lidava muito mal com os jornalistas. Era introvertido e detestava a exposição. Cazuza era um ser de palco, que estreou no Circo Voador e que estourou a voz logo no primeiro showdo Barão; já Renato Russo não gostava de turnês, era desengonçado quando dançava, tentava desfazer a aura messiânica (em vão) e arranjou,quase sem querer, brigas nos próprios shows. A Legião Urbana não tocava em festivais; o Barão Vermelho se consagrou no Rock in Rio I. Cazuza era, como escrevi, um “narciso”; Renato Russo era feio e queria ter nascido Alain Delon.

Então, as entrevistas de Renato Russo pouco me ajudaram a entender quem estava por trás das letras. Claro que poeta não é necessariamente “eu lírico”, mas eu gostaria de encontrar as pistas para o que o letrista Renato Russo andou realizando. O que ele leu, por exemplo? Ele nunca respondia diretamente. Falava em “Shakespeare”, apenas para ser genérico; citava “Drummond”, naturalmente, como todo mundo cita. Penso que era mais sincero quando elencava Chico & Caetano – sobretudo o impacto que lhe causou Construção (impacto que não refresca muito, porque foi causado em praticamente todo mundo pós-1971...). De qualquer modo, confirmei uma hipótese: Renato Russo ouviu muito rock, e ponto final. Era um filho da “revolução” (de 64), morou fora em criança (nos EUA, seu pai era funcionário do Banco do Brasil), xingou mas consumiu os “enlatados” todos – e escreveu sobre esse “lixo” (comercial, industrial), que “cuspiu de volta”, em forma de canções, “em cima de vocês” (“Geração Coca-Cola”).

Se o background do “artista” Renato Russo não me deixou muitas pistas – ou trilhas profundas que justificassem minha inicial fascinação –, desisti do objeto e parti para o sujeito. Por que aquilo tudo, de repente, me disse tanto? O que era “aquilo tudo”? Eu conseguia “delimitar”? Uma vez “delimitado”, eu conseguiria, por fim, explicar?

Descobri, nessa investigação, que a Legião Urbana que me interessava estava nos três primeiros álbuns. Mas não era tanto o punk rock do início, nem o começo de um papo cabeça, “adulto”, que se consolidaria a partir de As Quatro Estações (1989). O epicentro, digamos assim, do meu interesse estava no Dois (1986). O segundo disco, aquele do lado acústico, do lirismo adolescente que o Renato compôs, cronologicamente, antes dos vinte anos.

Em seguida, fui ouvir os CDs – e detectei uma porção de temas que despertaram o interesse de uma verdadeira multidão (eu lá no meio...).

Musicalmente, os três primeiros discos são confusos porque misturam as composições da banda punk que precedeu a Legião Urbana, o Aborto Elétrico, com o tal do approach acústico, com uma temática pós-juventude que devagarzinho surge... Ouvindo com atenção – não com ouvido de fã –, as diferenças saltam aos olhos. E a produção fica meio estrambótica; tanto que a própria banda tentou explicar isso num texto introdutório, encartado em Que país é este? (1987, o terceiro). Para completar a salada, segundo as entrevistas do livro que eu li, o Dois e o “Três” eram um álbum duplo único, feito com o intuito de ser lançado assim no mercado. Ou seja, esmiuçar a coisa faixa a faixa dá um trabalho danado porque, embora haja três discos físicos, faltou unidade e, conceitualmente, amarração.

Se é, para mim, quase impossível falar de Legião Urbana (1985, o Um),Dois e Que país é este?, cada um como um projeto em separado, agrupei os assuntos “cantados” de acordo com as fases da vida, e cheguei, creio, a um resultado mais interessante.

Fora a adolescência, que pegou a mim e mais a tantos milhões, há também uma certa “juventude” e a já citada “idade adulta”. (Sempre dentro da perspectiva do Renato Russo.) A juventude está meio misturada com a adolescência, então vou falar dela aqui também. Já a fase “adulta” vou jogar fora, porque acho meio batida. Nela, há a televisão, o consumo de massas, o golpe militar, Brasília, a burocracia, a violência da polícia, a violência urbana, o rock e o País do Futuro. Um vocabulário de que estamos já cansados – e um vocabulário que o Renato Russo mesmo não domina 100%. Quando ele tenta fazer sociologia, ele me soa ingênuo. Para mim, só quando ele é “adolescente” (e “jovem”) é que ele é autêntico.

Concluí que a adolescência – para quem não lia e vivia aquela época no Brasil dos anos 80 –, está inteira em “Quase sem querer”. A confusão, a indecisão, o “diferente”. Ao mesmo tempo, a impaciência e a “tranqüilidade”; a distração e o contentamento. Renato Russo cantou tudo isso nos seis primeiros versos da música. (Quem sabe, lembra; quem não sabe, deveria ouvir.) Mais para frente, ele completava que “procurava explicação para o que sentia”; e, mais atrás, ele insinuava que toda essa metamorfose, psíquica, acontecia por causa de uma paixão (!). O “eu” de “Quase sem querer” afirmava não ser mais “criança” e descobria o amor através do pranto do ser amado... Eu não sei quanto a vocês, mas a marca da minha adolescência foi meu primeiro amor. Em 1985. Então, em 1986, “Quase sem querer” caiu como uma luva.

Além da adolescência em si, Renato Russo é muito hábil ao abordar o conceito de tempo, como ele “muda”, como o percebemos quando “crescemos”... “Tempo Perdido”, é óbvio. A angústia que eu senti, aos catorze anos, quando aventei a hipótese de minha morte, e o mundo simplesmente continuando sem mim...! Acordar, “todos os dias”, e perceber que o ontem já foi – diz a canção. Ao mesmo tempo (ao notar isso), ser “tão jovem” e ter “todo o tempo do mundo”. O jovem tem, em resumo, a ilusão da própria imortalidade mas tem, também, a consciência da sua finitude. Mas, e aí, qual a solução? “Sempre em frente”, o vocalista responde. E a modernidade, e os tempos modernos, batem à porta: “Não temos tempo a perder”. Quantos “tempos” até agora, você contou? Renato Russo, espertamente, não fecha a equação – descamba para a relatividade: “Temos nosso próprio tempo”, define.

Fora “Quase sem querer” e “Tempo Perdido”, a mais emblemática da adolescência, em Dois, é “Andrea Doria” – uma das poucas que Renato Russo admitia que se sustentava como “poesia”, porque ainda fazia sentido sem a música. De novo, as mudanças e as inseguranças típicas dessa fase da vida: “Eu sei – é tudo sem sentido”. A carência: “Quero tua força, como era antes”. A descoberta e a busca, incessante, do outro (em suma): “Quero ter alguém, com quem conversar. Alguém que, depois, não use o que eu disse... contra mim”. E o fechamento como a constatação da diferença, movida por uma forte rejeição (a homossexualidade, talvez?), ou por conta de uma individualidade que sempre se choca contra o grupo (no meu caso, também): “Nada mais vai me ferir... É que eu já me acostumei, com a estrada ‘errada’ que eu segui, como a minha própria lei” (aspas minhas).

É uma filosofia de vida que guarda muito sentido quando, já no primeiro disco, ele declara na primeira faixa: “Eu posso estar sozinho, mas eu sei muito bem (a)onde estou”. O tipo de afirmação, ou de percepção, da solidão que me atraiu muito. E a outros tantos, também... E Renato Russo projetava a sua solidão nos “outros”, que seguiam a turma, que adotavam os modismos (que eu também detestava), em "A Dança": “Você com suas drogas/ E as suas teorias/ E a sua rebeldia/ E a sua solidão!”. Berrava a última palavra; e podia muito bem estar diante de si, no espelho. Uma solidão de abandono, não apenas sentimental, aparecia em “Ainda é cedo”: “Eu só queria estar ali: sempre ao lado dela – eu não tinha (a)onde ir”. Uma história ainda mais desalentadora quando revela o seguinte fato (um ponto de inflexão na narrativa): “Ela também estava perdida – e, por isso, se agarrava a mim também. Eu me agarrava a ela. Eu não tinha mais ninguém”. (Agora, lendo, brota um aspecto maternal que antes me escapava, para enriquecer e, claro, complicar.)

E nos fisgaram – falo de mim e dos milhões de compradores de discos da Legião Urbana –, os amores (não só platônicos), as histórias, até as aventuras que ainda iríamos viver (ou gostaríamos de). É a ponte, no meu ponto de vista, entre a fase da “adolescência” e a da “juventude” – na “poética” do Renato Russo. “Ainda é cedo” (continuando...) guarda, evidentemente, isso: “Uma menina me ensinou, quase tudo que eu sei(...) Ela fazia muitos planos(...)”. Um primeiro amor, fisicamente consumado, que acaba de maneira triste: “Ela me disse: ‘Eu não sei mais... o que eu sinto por você. Vamos dar um tempo... Quem sabe, um dia, a gente se vê’”. Depois de ofensas mútuas: “Falamos o que não devia nunca ser dito por ninguém”. E Renato Russo, ou o “eu lírico”, não se conformava no refrão: “E eu dizia: ‘Ainda é cedo. Cedo, cedo, cedo...’”. (Agora me ocorre a lembrança de um amigo que viveu exatamente essa história – e, anos depois, ainda escrevia cartas para a tal fulana, que lhe ensinou tudo.)

“Eduardo e Mônica”, de tão bem construída, se tornou emblemática, mas eu prefiro pulá-la porque ficou muito marcada e porque eu vejo nela mais um aspecto de comédia, de crônica de costumes, do que uma profundidade mais presente nas letras genéricas e não-específicas. “Faroeste Caboclo”, idem – complementando com o aspecto social, igualmente bem acabado, mas que não me convence 100%. (Será, por exemplo, que alguém tomou alguma medida – falo do poder público – depois de ouvir essa “denúncia”?) “Eduardo e Mônica” eram “amigos” de Renato Russo na realidade – uma amizade que dava saudade no verão – e eu destaco apenas o trecho em que eles descobrem o amor: meio, de repente, uma “vontade (louca) de se ver”; uma vontade que “crescia” – “como tinha de ser”. E “Faroeste Caboclo”, tirando o ataque de sociólogo do Russo, na minha ótica, é meio autobiográfica, pois o protagonista “sentia que aquilo ali não era o seu lugar” (Russo: de Brasília ao Rio) e “de escolha própria” (na sintaxe do Riobaldo) “escolheu” – adivinha o quê? – a “solidão” (!).

Eu fecharia o painel com “Eu sei”. Não à toa, uma canção oficialmente do Dois que passou para o “Três” (Que país é este?). Pela décima vez, a incomunicabilidade, a incompreensão e, óbvio, a rejeição, o conflito: “Palavras são erros – e os erros são seus”. Para, no momento subseqüente, sofrer um ataque de humildade e passar por uma expiação: “Não quero lembrar... que eu erro também”. E o resultado da experiência acumulada no processo: “Um dia, pretendo tentar descobrir... porque é mais forte quem sabe mentir”. E apenas para rimar e fechar outra estrofe: “Não quero lembrar... que eu minto, também”. Estamos no primeiro minuto de “Eu sei” (ainda faltam dois) e ele poderia muito bem encerrar, mas continua. Adolescente, sem dúvida: “Fecha a porta do seu quarto. Porque, se toca o telefone, pode ser alguém... Com quem você quer falar... Por horas e horas e horas...” (Quem não fez isso vivendo na época pré-celular, pré-e-mail e pré-instant messaging?). A adolescência, como todo mundo sabe, finda com a juventude: “A noite acabou. Talvez tenhamos de fugir sem você” (grifo meu). E uma metáfora da situação: “Somos pássaro novo, longe do ninho”.

Depois que eu cresci, que a adolescência – ou a “noite” – “acabou”, eu nunca mais tive o mesmo interesse pela Legião Urbana. Dispensei-a, como a gente dispensa alguns mentores, algumas muletas. As Quatro Estações, hoje, eu considero até um bom álbum, mas, à época, devido ao bombardeio de “Pais e Filhos” nas FMs, me pareceu cafona (“É preciso amar...”) e um pouco conformista (tipo “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”). Na seqüência, no V (1991), “Teatro dos Vampiros”, com aquela autocomplacência tão classe média (“meus amigos todos estão procurando emprego”) e “O mundo anda tão complicado”, de uma simplicidade desconcertante (“vem cá, meu bem, que é bom viver”?). O que houve com o poeta? Havia se tornado, como temia Pessoa, “casado, cotidiano, fútil e tributável”? Que lástima! Que saudade do Aborto Elétrico...!

Felizmente, para o bem da estética, ele retornou em A Tempestade(1996), embora o desfecho, como todos sabemos, tenha sido trágico – com a morte do bardo. E eu adoro aquele refrão: “Mas você só quer algodão doce!”. Ou então: “Quando eu penso em você, eu tenho febre”. A autocomiseração também reaparecia, mas, naquele contexto, ela era honesta – ele estava pedindo ajuda, sim, mas nós, como sempre, não podíamos ajudá-lo. Escrevia, ainda, o último capítulo de suas eternas desilusões amorosas: “Longe do meu lado”. “Dezesseis” era, como não poderia deixar de ser, o último suspiro na linha épica de “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”. As sobras de estúdio, em Uma outra estação (1997), seguiam no embalo da autópsia psicológica (reveladora) – e é incrível que, com aquele fiapo de voz, Renato Russo, em sua agonia, tenha se aproximado, uma última vez, de Cazuza. A Tempestade e Uma outra estação seriam, num duplo, Burguesia (1989)reloaded. “Dado viciado” estava, finalmente, gravada. Mas eu escolheria como epitáfio, e para descer, aqui, o pano, “Comédia romântica”:

“Acho que só agora eu começo a perceber
Tudo que você me disse
Pelo menos, (do) que lembro que aprendi...
Com você
Está realmente certo.

“Bem mais certo do que eu queria acreditar
Você gosta mesmo de mim
Se arriscando...
A me perder assim
Ao me explicar o que eu não quero ouvir.

“Ainda não estou pronto pra saber a verdade
Como eu estava até há uma estação atrás.
(Até uma estação atrás.)

“Acho que só agora eu começo a ver
Tudo que você me disse
É o que você gostaria que tivessem dito...
Pra você
Se o tempo pudesse voltar dessa vez.

“Sou eu mesmo e serei eu mesmo então
Não há nada de errado...
Comigo, não.
(Não, não, não.)

“Não preciso de modelos, não preciso de heróis.
Tenho meus amigos e, quando a vida dói,
Eu tento me concentrar... num caminho 'fácil'.

“Sou eu mesmo e serei eu mesmo então
E eu queria...
Que o tempo pudesse voltar desta vez.
(Oh, yeah!)” 

Renato Russo

segunda-feira, 1 de agosto de 2011


 Ha tempos

Legião Urbana

Parece cocaína
Mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem
Do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora
Da virtude que perdemos…
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro…
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso…
Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito…
Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira…
E há tempos
Nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
E há tempos são os jovens
Que adoecem
E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção…
Meu amor!
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa…

ANÁLISE:

Esta é, sem dúvidas uma das músicas mais simples de se interpretar do legião. É bem clara a intenção de mostrar os sentimentos presentes e ausentes em um jovem em “crise existencial”. Logo no primeiro parágrafo temos um vocábulo de lugar, “cidade”, já passando a idéia de insatisfação com o lugar em que habita o eu-lírico, ou o lugar que habita nele mesmo, há possibilidade para mais de uma interpretações… Veja bem: como herdar o que perdemos? Oras, as consequências da ausência são heranças perceptíveis. Essa herança seria justamente o TEMOR causado pelo cansaço e pela solidão.O uso da primeira pessoa do plural leva à generalização, e pode ser vista com a finalidade de falar por uma grande massa que se vê calada e que, se falassse a dor que sente “acordaria (…) a vizinhança inteira”. A solução para este “caos” seria o sonho que um dia teve mas que já não se lembra, ou seja, um sonho que jamais se realizaria, não havendo porque lutar com ele. Outra possibilidade seriam os santos, a religiosidade, e até eles estão incertos sobre o que é maldade num tempo como àquele.
E eis a melhor parte da música… Os jovens estão sentindo na sua essência este mundo doentio, este mundo cheio de valores contraditórios, chegando a adoecerem, mas não fisicamente, pelas palavras subsequentes, parece faltar (veja mais uma vez a AUSÊNCIA estando presente significativamente) o ENCANTO de viver. Já não há mais porque sorrir, parece o fim de tudo. Até que os sorrizos envelhecem, enferrujam… No trecho :”Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção…” parece justificar que alguns jovens adoecidos pelo “mundo” buscam ajuda, “abrigo” ao que estiver mais próximo, neste caso é o ACASO, o que é uma indireta às drogas, à tentativa de suicídio etc.
Então aparece uma solução, um guia: “Disciplina é liberdade; Compaixão é fortaleza; Ter bondade é ter coragem.” Ainda há esperança!
Os últimos dois versos são implicantes… Como a própria batida da música entrega, esta não seria uma fala da “massa” já citada, ou do eu-lírico, na primeira pessoa que também aparece durante a música. Este novo personagem é o egoísta que pode salvar o mundo, salvar a “cidade”, tirar os jovens do “acaso”, fazer os sonhos se transformarem em realidade e acabar com o “imperfeito”. Ele tem um POÇO, ele tem como promover essa mudança. Ele não quer compartilhar o “bem” que tem. Não tem “coragem”.

Flores

Titãs

Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem
Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem

ANÁLISE:

A letra desta música gravada pelos Titãs, é de autoria dos vocalistas Branco Melo e Arnaldo Antunes, que sempre utilizaram em seus textos a técnica da poesia concreta, que é basicamente uma técnica de frases soltas.
A meu ver, neste texto, eles fizeram um relato de um Eu-Lírico, a partir do ponto de vista de um suicida, que fica relembrando sua morte de dentro do seu túmulo, suicídio este cometido após uma crise de depressão.
Quando ele diz:
“Olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho” – Ele quer dizer que já está cansado de si mesmo, já não agüenta mais a vida que leva.
“Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro” – Aqui cabem duas análises; tanto pode ser o inconformismo pelo fato das pessoas utilizarem flores naturais (ou seja; que tem vida!) para cultuar a morte. Quanto pode ser a mágoa por ele achar que machucou/magoou alguém. Neste caso, “flores” seria uma metáfora para “pessoas”.
“Os punhos e os pulsos cortados” são mensagens claras de suicídio.
Nos versos: “Há flores cobrindo o telhado / E embaixo do meu travesseiro / Há flores por todos os lados / Há flores em tudo que eu vejo”… Fica bem claro o ponto de vista do morto, já dentro do caixão.
“A dor vai curar essas lástimas / O soro tem gosto de lágrimas”… Aqui ele afirma que a dor da morte irá pôr fim às lamentações das pessoas, ou seja, não vale a pena ficar chorando por quem escolheu morrer. Aliás, não vale à pena nem tentar salvá-lo, pois, segundo ele, até mesmo o remédio (soro) tem sabor de choro. E quando ele afirma que “As flores têm cheiro de morte / A dor vai fechar esses cortes…” ele quer nos dizer que as próprias flores as quais as pessoas usam para cultuar os mortos já trazem em seu estado natural um sinal póstumo (seu cheiro), numa clara alusão ao fascínio pela morte.
Por fim, “As flores de plástico não morrem…” é uma metáfora que exige uma análise mais profunda. Pode-se concluir que ele acha um desperdício as pessoas utilizarem flores vivas (o que irá matá-las, também) para cultuar os mortos, quando poderia ser mais útil usarmos flores artificiais. Mas ele também pode estar novamente se referindo às pessoas. Nesta visão, as pessoas sensíveis (metáfora para flores naturais) foram feitas para nascer, crescer e morrer, num processo natural, onde a morte não precisa ser lamentada. Já as pessoas insensíveis, ele considera que são artificiais e não vêem beleza na morte.

Como Nossos Pais

Elis Regina

Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu 'tô por fora', ou então que eu 'tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
como nossos pais

ANÁLISE:

Sim, concordo com o tom professoral narrador, ao estilo “meninos eu vi”, descrevendo os horrores de lutar contra a ditadura. Mas creio que não foi só a ditadura militar a qual os jovens queriam lutar contra. A ditadura de tudo. A ditadura da classe média conservadora em uma época em que ter pais separados era considerado tão “indesejável” quanto ter filhos homossexuais hoje em dia (afinal no discurso da maioria hoje. A revolução de costumes pela qual o Brasil passava na década de sessenta é um importante ingrediente que acompanhou a revolta contra a ditadura política ao ponto de as duas coisas se confundirem no espaço iberoamericano – coisa que não aconteceu no resto do mundo ocidental, onde continuava a prevalecer a democracia. A juventude a qual o narrador se refere lutava pela liberdade de tudo: de poder eleger o seu próprio destino, de poder casar sem ser virgem, de poder não ter que casar porque a namoradinha engravidou, de poder experimentar drogas, de poder escolher qual religião, de poder escolher seus proprios amigos, de poder caminhar e cantar (contra a ditadura ao estilo “Para não dizer quer não falei de flores”), ou sem lenço (revolucionário comunista) ou documento (como era exigido de todo cidadão trabalhador perante a ditadura) (ao estilo de Caetano Veloso), de nao querer se conformar em aspirar a rotineira vida de classe média cujo objetivo foi sempre ter um bom casamento, uma boa familia, um bom emprego. Os jovens então pregavam que tinham direito a errar por conta própria, que preferiam aprender da vida com empregos não-convencionais (viver do esporte, das artes, pq não?) a almejar passar num concurso público e virar telefonista ou office-boy de uma grande firma na cidade grande. Queriam romper o esquema de que se alguém não se casasse até os 22 anos e não tivesse um filho até os 25, a pessoa estava velha e passada. Esta mesma juventude, em alguns casos extremos, chegava inclusive a ser reacionária a tudo o que cheirasse essa classe média conservadora – eram contra o que se falasse em inglês, contra a Jovem Guarda, contra a introdução da guitarra elétrica (yankee) na música popular (autêntica) brasileira, contra o que não fosse engajado – chegando a vaiar o Caetano Veloso no 3o Festival da Canção quando este queria cantar o tema “É proibido proibir” com o “não-engajado e brejeiro” Odair José.
A luta contra tudo isso foi extremamente desgastante para essa geração. E depois de um período extremamente desgastante tanto para essa geração quanto para a junta militar, acontece em 1979 a anistia aos exilados. Os revolucionários de antes, agora mais velhos, sabem que também têm uma família para sustentar. A sobrevivência ao sistema fez com que essa geração conseguisse progressos (a anistia e a promessa de que um dia a ditadura iria embora foi em si uma grande conquista política, assim como a sociedade brasileira passa a ser mais tolerante com comportamentos menos ortodoxos … o divórcio foi legalizado em 1977!) mas também fez com que ela tivesse que se enquadrar de alguma forma. O aborto nunca foi legalizado, a Elis teve que cantar o Hino Nacional em um evento da ditadura e, de certa forma, a sobrevivência ao sistema, dentro do sistema, nos aproximou dos nossos pais em todos os bons e maus sentidos. Afinal, quem não teme a retaliação violenta da ditadura, querendo proteger mulher, marido, filhos, familiares e amigos? Quem não quer prover o melhor padrão de vida aos seus? Por mais lúdico e libertário possa parecer viajar pelo Brasil-continente ou pela América Latina, criar raízes e ter alguma estabilidade coadunam com propiciar um lar para a sua família. E quem sabe, tal geração pôde então se ver, com horror em alguns casos, nos seus próprios pais. De reacionário, passou-se a ser conservador; de vendido, passou-se a ser pragmático.
Em 2012, muita gente ainda acredita no âmago da metamorfose ambulante de alguns políticos brasileiros. Para melhor ou para pior. Talvez este maravilhoso tema já seja a nossa síntese como nação. Gostamos de mudanças, mas não de rupturas e revoluções. Tudo no Brasil muda em qq direção, mas sempre a passos lentos. Muito lentos.

Era Um Garoto

Engenheiros do Hawaii

Era um garoto
Que como eu
Amava os Beatles
E os Rolling Stones..
Girava o mundo
Sempre a cantar
As coisas lindas
Da América…
Não era belo
Mas mesmo assim
Havia mil garotas à fim
Cantava Help
And Ticket To Ride
Oh Lady Jane, Yesterday…
Cantava viva, à liberdade
Mas uma carta sem esperar
Da sua guitarra, o separou
Fora chamado na América…
Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
Mandado foi ao Vietnã
Lutar com vietcongs…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Era um garoto
Que como eu!
Amava os Beatles
E os Rolling Stones
Girava o mundo
Mas acabou!
Fazendo a guerra
Do Vietnã…
Cabelos longos
Não usa mais
Nem toca a sua
Guitarra e sim
Um instrumento
Que sempre dá
A mesma nota
Ra-tá-tá-tá…
Não tem amigos
Não vê garotas
Só gente morta
Caindo ao chão
Ao seu país
Não voltará
Pois está morto
No Vietnã…
Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
No peito um coração não há
Mas duas medalhas sim….
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Tatá-tá tá tá…
Ra-tá-tá tá-tá …
Ra-tá-tá tá-tá …

ANÁLISE:

Essa música foi criada originalmente em italiano, em 1965, em plena época da Guerra do Vietnã (1962-75). Comparando-se o poderio militar dos EUA em relação àquele minúsculo país asiático, o que no início parecia ser favas contadas, veio a ser uma das maiores derrotas já sofridas pelo império ianque. O ano de 1965, como se sabe, marcou a completa intervenção militar dos EUA no Vietnã. Os 23 mil soldados norte-americanos de janeiro passaram a 267 mil em junho, chegando a inimagináveis 543 mil americanos nos anos finais. Neste ano (1965) a guerra ganhou a mídia mundial, com suas atrocidades sendo levadas para o mundo inteiro em horário nobre. O país considerado berço da liberdade chegou a adotar o serviço militar obrigatório. A guerra foi se tornando antipática para a juventude americana, que para fugir à obrigação de ser recrutada para uma guerra pela qual não nutria nenhum interesse, mergulhou num movimento de contestação chamado de movimento Hippie o qual se espalhou por muitas partes do mundo. Tendo como mote o chavão “paz e amor”, os jovens produziram muitas formas de contestar a ordem vigente, sendo a principal delas justamente a música. Através desta, multidões manifestavam-se contra guerrilhas ocorridas em várias partes do mundo, em especial, a Guerra do Vietnã. Foi nesta época que vários artistas se engajaram na luta pela paz, como: Bob Dylan, John Lennon, Joan Baez, Jimi Hendrix, Etc. “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” não é uma música engajada politicamente. Por ser composta por músicos italianos (Migliacci – Lusini), traz a cultura do “sofrimento” latino, tão comum nas melodias italianas, e usa o pano de fundo da guerra para tratar de sofrimento pessoal, desventuras, confronto de sonho com realidade.
A letra é muito simples, não contém metáforas para serem desvendadas, e narra a história de um jovem livre e feliz, apaixonado por música (especialmente Beatles e Rolling Stones grupos dos quais sabia tocar muitas músicas como Help, Lady Jane, Etc.) e justamente por saber tocar guitarra, fazia muito sucesso com as garotas. Um dia ele se vê obrigado a abrir mão de tudo isso, pois fora convocado pelo seu país, os EUA, para ir lutar no Vietnam, numa guerra pela qual não nutria nenhum interesse, lutar contra pessoas as quais não tinha como inimigos, distante de tudo aquilo que amava. O sofrimento da guerra é narrado fazendo contraponto com tudo aquilo que o autor considera como liberdade (cabelos longos/corte de cabelo militar ; guitarra/metralhadora)… Até que, por fim, o personagem morre e ele descreve o simbolismo da falta de humanidade da guerra na imagem de que no lugar de um coração no seu peito, só lhe restam duas medalhas de “honra ao mérito”

Exagerado



Cazuza


Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos
Foram traçados
Na maternidade…
Paixão cruel
Desenfreada
Te trago mil
Rosas roubadas
Pra desculpar
Minhas mentiras
Minhas mancadas…
Exagerado!
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado…
Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome
Se você não me amar…
Por você eu largo tudo
Vou mendigar, roubar, matar
Até nas coisas mais banais
Prá mim é tudo ou nunca mais…
Exagerado!
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado…
E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Prá mim é tudo ou nunca mais…
Exagerado!
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado…
Jogado aos teus pés
Com mil rosas roubadas
Exagerado!
Eu adoro um amor inventado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado…

ANÁLISE:

Acredito que esta letra venha trazer com lirismo, entretanto de maneira bem clara, diferente de outras músicas do cazuza, a sua postura “hiperbólica”.
Na primeira estrofe ele faz a típica “promessa do primeiro dia”: eu te amo para sempre, você é o amor da minha vida, parece que já te conheço há mil anos… e essas coisas que sabemos que dizemos/ouvimos quando do início de um relacionamento. Acredito que o trecho “nossos destinos foram traçados na maternidade” não faça referência a seus pais pois em assim sendo o destino teria sido traçado na concepção. Não está escrito que as duas pessoas se conheceram na maternidade, cada uma pode ter tido seu destino traçado no ato de seu nascimento e estes serem em lugares e épocas distintas.
Na segunda estrofe estes já se conhecem e já tem um relacionamento. A crueldade da paixão se dá por sua intensidade, e quando a paixão é intensa sabemos que perdemos o limite, tal como roubar (ainda que sejam as rosas) para tentar compensar as falhas provenientes de sua personalidade e promiscuidade.
Na terceira estrofe existe a marca clara do exagero, as promessas que não podem ser cumpridas, ninguém consegue deixar voluntariamente de respirar para sempre, ante a manutenção deste quadro o organismo faz de tudo para preservar os órgãos nobres e após a incosnciência, voltariamos a respirar. Morrer de fome voluntariamente, também é outra coisa difícil de se fazer, todas as greves de fome duram até a fome excessiva, principalmente se o motivo não é muito convincente.
Na quarta estrofe é possível perceber o recurso final, o abandono das coisas de que muito gostamos em prol da paixão. “E por você eu largo TUDO”. O que ele se propõe a largar aí é a vida bohemia, a luxúria e a postura de “playboy” que tinha. Fato que é completado pela quinta estrofe, onde também tenta fazer um joguete semantico quando faz a alusão a carreira, dinheiro, canudo. Aí acredito que para ledores ele se referira a trabalho, renda e formação intelectual. Para leitores que levam em consideração a biografia do autor acredito sim que ele se refira ao uso de drogas quase como numa gradação: colocar o pó sobre a mesa fazendo a carreira, pegar o dinheiro e enrolar como um canudo usando o mesmo para aspirar a droga. Estes dois refrões terminam do mesmo jeito não à toa, entendo que aí seja a hora do aviso: “olha, é agora ou nunca, se não quiser eu desisto pois tem quem queira”; quando ele diz “pra mim é tudo ou nunca mais…”, ele faz um ultimato.
O refrão vem declaradamente explicar todos os exageros cometidos ao longo da música, a afirmação sobre sua personalidade “hiperbólica”, a submissão para conseguir o que deseja (jogado aos teus pés) e a afirmação de que esta postura não é apenas algo que lhe dava prazer (ADORO um amor inventado).
Mais uma caracterisca que acredito haver que impeça a interpretação sobre a referência desta música ser a mais de uma pessoa é a maneira como ele usava as pessoas, se fizesse a referência aos seus pais não usaria “teus” no refrão e sim “vossos”.

Alagados


Paralamas Do Sucesso




Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos
Num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Mas a arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé

ANÁLISE:

Em “Alagados” o Herbert Viana faz uma crítica social ao capitalismo selvagem, porquanto sabemos o quanto este sistema é injusto com as pessoas desfavorecidas financeiramente.
Como pano de fundo ele usou as imagens dos grandes bolsões de miséria instalados em orlas paradisíacas existentes mundo afora como a favela dos Alagados, em Salvador; a favela de Trenchtown, em Kingston, capital da Jamaica; e a favela da Maré, no Rio de Janeiro. Esta escolha é proposital justamente para mostrar o contraste entre a alegria (estas três cidades são sinônimos de festa) e a tristeza (a situação deprimente dos moradores dessas favelas).
Na primeira estrofe ele mostra que para as pessoas que vivem nessas condições subumanas, o amanhecer de um dia já é um grande desafio, pois o despertar lhes tira do mundo das fantasias (os sonhos) para as suas duras e miseráveis realidades, aqui exemplificadas por palafitas, trapiches e farrapos. Além, é claro, dos filhos (nestes conglomerados, invariavelmente, a quantidade de crianças é imensa, sendo estas as principais vítimas do descaso).
Na segunda estrofe, para fixar a insensibilidade das autoridades, o Herbert usou uma imagem forte: a figura do Cristo de braços abertos, tão explorada pelos governantes do Rio de Janeiro como um símbolo de acolhimento, na verdade é uma falácia, pois a triste realidade daquelas pessoas mostra que a cidade (a sociedade) além de não acolhê-las, abandonou-as à própria sorte.
Obs: A letra mostrada no site traz um erro de grafia no refrão, o que leva as pessoas a fazerem uma análise equivocada.
Então, onde está escrito “A esperança não vem do mar, VEM das antenas de TV” (dando a entender que as pessoas se iludem através das imagens da TV), na verdade, o texto correto é: “A esperança não vem do mar, NEM das antenas de TV” (garantindo que a resolução daqueles problemas não virá por essas opções) o que, obviamente, muda totalmente o sentido de análise.
Assim, percebemos que ele usa o refrão para, além da crítica social, também fazer um alerta àquelas pessoas: se elas quiserem realmente que a justiça social lhes seja feita elas têm que ir à luta, pois a esperança de justiça tão esperada não virá daquele mar à sua frente, muito menos virá por intermédio das antenas de TV (a televisão, sabemos, é um mundo de fantasias), ou seja, nada do que almejam cairá do céu.
Nos dois últimos versos ele mostra que é necessário se ter fé (a arte de viver baseia-se na fé), mas também mostra o seu ceticismo em relação às autoridades e à burguesia (só não se sabe fé em quê).

MÚSICAS COMENTADAS

VAMOS COMEÇAR COM PANIS ET CIRCENSES DOS MUTANTES:

Panis et circenses


Mutantes


Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar
Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

ANÁLISE:

Escrita em 1968, Panis et Circenses foi um hino do movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Mais do que um movimento de renovação artística, a Tropicália, como ficou conhecido, se manifesta como um movimento contracultural, questionando os costumes e as tradições de toda a sociedade. A irreverência e o deboche como meios para atingir os seus objetivos foram largamente criticados, tanto pela direita quanto pela esquerda, numa época marcada pela extrema politização das manifestações artísticas em geral.
A música, composta por 03 estrofes e um refrão, teve como arranjador o maestro Rogério Duprat, que conseguiu criar uma salada musical com elementos de diversas escolas e épocas como o Renascentismo, o Modernismo e o Pop, bem como encontrou no estilo escrachado e modernista dos Mutantes a qualificação ideal para sua interpretação, que se tornou antológica.
Panis et Circenses vem do latim e significa Pão e Circo, ou seja, a música faz uma crítica ao tipo de política adotada pelo governo militar para manter a população dócil e alienada: Entretenimento (A televisão, principalmente) e Comida (nos alimentos fornecidos pela “Aliança para o Progresso”, programa criado pelo governo americano com a intenção de angariar simpatia dos povos da América Latina).
Não fugindo à característica irreverente, a obra também faz um deboche em cima dos críticos da Tropicália, e, principalmente, critica os costumes e a alienação da sociedade.
No primeiro verso da primeira estrofe e no último verso da terceira estrofe os artistas se queixam da perseguição que os críticos musicais faziam ao estilo tropicalista (Eu quis cantar minha canção iluminada de sol / As folhas sabem procurar pelo sol e as raízes procurar, procurar).
Os versos restantes das três estrofes são fragmentos de imagens fortes e feitas propositadamente para chocar: (Soltei os panos sobre os mastros no ar / Soltei os tigres e os leões nos quintais / Mandei fazer de puro aço luminoso um punhal / Para matar o meu amor e matei / Às cinco horas na avenida central / Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar).
A intenção de chocar é intencional para justamente tecer a crítica que está contida no refrão ao final de cada estrofe, que é a crítica à alienação das pessoas (Mas as pessoas da sala de jantar / São ocupadas em nascer e morrer).
Ou seja, a despeito do Eu-lírico mostrar estar fazendo coisas absurdas e chocantes nas ruas na intenção de chamar a atenção da sociedade para as mazelas que estavam sendo impostas pelo Status Quo vigente, aquelas pessoas o ignoravam e aceitavam passivamente o pão e o circo que o governo usava como “cala-boca”. Fechavam-se na alienação de seus mundinhos, convencidas de que tudo o que ocorria pelo afora não lhes dizia respeito. Bastava-lhes nascer e morrer.