Como Nossos Pais
Elis Regina
Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu 'tô por fora', ou então que eu 'tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
como nossos pais
ANÁLISE:
Sim, concordo com o tom professoral narrador, ao estilo “meninos eu vi”, descrevendo os horrores de lutar contra a ditadura. Mas creio que não foi só a ditadura militar a qual os jovens queriam lutar contra. A ditadura de tudo. A ditadura da classe média conservadora em uma época em que ter pais separados era considerado tão “indesejável” quanto ter filhos homossexuais hoje em dia (afinal no discurso da maioria hoje. A revolução de costumes pela qual o Brasil passava na década de sessenta é um importante ingrediente que acompanhou a revolta contra a ditadura política ao ponto de as duas coisas se confundirem no espaço iberoamericano – coisa que não aconteceu no resto do mundo ocidental, onde continuava a prevalecer a democracia. A juventude a qual o narrador se refere lutava pela liberdade de tudo: de poder eleger o seu próprio destino, de poder casar sem ser virgem, de poder não ter que casar porque a namoradinha engravidou, de poder experimentar drogas, de poder escolher qual religião, de poder escolher seus proprios amigos, de poder caminhar e cantar (contra a ditadura ao estilo “Para não dizer quer não falei de flores”), ou sem lenço (revolucionário comunista) ou documento (como era exigido de todo cidadão trabalhador perante a ditadura) (ao estilo de Caetano Veloso), de nao querer se conformar em aspirar a rotineira vida de classe média cujo objetivo foi sempre ter um bom casamento, uma boa familia, um bom emprego. Os jovens então pregavam que tinham direito a errar por conta própria, que preferiam aprender da vida com empregos não-convencionais (viver do esporte, das artes, pq não?) a almejar passar num concurso público e virar telefonista ou office-boy de uma grande firma na cidade grande. Queriam romper o esquema de que se alguém não se casasse até os 22 anos e não tivesse um filho até os 25, a pessoa estava velha e passada. Esta mesma juventude, em alguns casos extremos, chegava inclusive a ser reacionária a tudo o que cheirasse essa classe média conservadora – eram contra o que se falasse em inglês, contra a Jovem Guarda, contra a introdução da guitarra elétrica (yankee) na música popular (autêntica) brasileira, contra o que não fosse engajado – chegando a vaiar o Caetano Veloso no 3o Festival da Canção quando este queria cantar o tema “É proibido proibir” com o “não-engajado e brejeiro” Odair José.
A luta contra tudo isso foi extremamente desgastante para essa geração. E depois de um período extremamente desgastante tanto para essa geração quanto para a junta militar, acontece em 1979 a anistia aos exilados. Os revolucionários de antes, agora mais velhos, sabem que também têm uma família para sustentar. A sobrevivência ao sistema fez com que essa geração conseguisse progressos (a anistia e a promessa de que um dia a ditadura iria embora foi em si uma grande conquista política, assim como a sociedade brasileira passa a ser mais tolerante com comportamentos menos ortodoxos … o divórcio foi legalizado em 1977!) mas também fez com que ela tivesse que se enquadrar de alguma forma. O aborto nunca foi legalizado, a Elis teve que cantar o Hino Nacional em um evento da ditadura e, de certa forma, a sobrevivência ao sistema, dentro do sistema, nos aproximou dos nossos pais em todos os bons e maus sentidos. Afinal, quem não teme a retaliação violenta da ditadura, querendo proteger mulher, marido, filhos, familiares e amigos? Quem não quer prover o melhor padrão de vida aos seus? Por mais lúdico e libertário possa parecer viajar pelo Brasil-continente ou pela América Latina, criar raízes e ter alguma estabilidade coadunam com propiciar um lar para a sua família. E quem sabe, tal geração pôde então se ver, com horror em alguns casos, nos seus próprios pais. De reacionário, passou-se a ser conservador; de vendido, passou-se a ser pragmático.
Em 2012, muita gente ainda acredita no âmago da metamorfose ambulante de alguns políticos brasileiros. Para melhor ou para pior. Talvez este maravilhoso tema já seja a nossa síntese como nação. Gostamos de mudanças, mas não de rupturas e revoluções. Tudo no Brasil muda em qq direção, mas sempre a passos lentos. Muito lentos.

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