segunda-feira, 1 de agosto de 2011


Flores

Titãs

Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem
Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem
Flores
Flores
As flores de plástico não morrem

ANÁLISE:

A letra desta música gravada pelos Titãs, é de autoria dos vocalistas Branco Melo e Arnaldo Antunes, que sempre utilizaram em seus textos a técnica da poesia concreta, que é basicamente uma técnica de frases soltas.
A meu ver, neste texto, eles fizeram um relato de um Eu-Lírico, a partir do ponto de vista de um suicida, que fica relembrando sua morte de dentro do seu túmulo, suicídio este cometido após uma crise de depressão.
Quando ele diz:
“Olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho” – Ele quer dizer que já está cansado de si mesmo, já não agüenta mais a vida que leva.
“Chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro” – Aqui cabem duas análises; tanto pode ser o inconformismo pelo fato das pessoas utilizarem flores naturais (ou seja; que tem vida!) para cultuar a morte. Quanto pode ser a mágoa por ele achar que machucou/magoou alguém. Neste caso, “flores” seria uma metáfora para “pessoas”.
“Os punhos e os pulsos cortados” são mensagens claras de suicídio.
Nos versos: “Há flores cobrindo o telhado / E embaixo do meu travesseiro / Há flores por todos os lados / Há flores em tudo que eu vejo”… Fica bem claro o ponto de vista do morto, já dentro do caixão.
“A dor vai curar essas lástimas / O soro tem gosto de lágrimas”… Aqui ele afirma que a dor da morte irá pôr fim às lamentações das pessoas, ou seja, não vale a pena ficar chorando por quem escolheu morrer. Aliás, não vale à pena nem tentar salvá-lo, pois, segundo ele, até mesmo o remédio (soro) tem sabor de choro. E quando ele afirma que “As flores têm cheiro de morte / A dor vai fechar esses cortes…” ele quer nos dizer que as próprias flores as quais as pessoas usam para cultuar os mortos já trazem em seu estado natural um sinal póstumo (seu cheiro), numa clara alusão ao fascínio pela morte.
Por fim, “As flores de plástico não morrem…” é uma metáfora que exige uma análise mais profunda. Pode-se concluir que ele acha um desperdício as pessoas utilizarem flores vivas (o que irá matá-las, também) para cultuar os mortos, quando poderia ser mais útil usarmos flores artificiais. Mas ele também pode estar novamente se referindo às pessoas. Nesta visão, as pessoas sensíveis (metáfora para flores naturais) foram feitas para nascer, crescer e morrer, num processo natural, onde a morte não precisa ser lamentada. Já as pessoas insensíveis, ele considera que são artificiais e não vêem beleza na morte.

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